Boas-vindas!

Amigos e amigas,

Após uma agradável experiência com troca de idéias por e-mail, decidi criar um espaço onde pudéssemos fazer essa troca de modo acessível a todos e assim aprendêssemos mais uns com os outros.

Por essa razão, posto aqui textos e vídeos sobre temas que despertem o nosso interesse, nossa vontade de aprender e nossa necessidade de mudança, com o desejo de que seja agradável e enriquecedor para todos.

Abraço!

Célia

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

SOBRE A LIBERDADE

Sei que é inútil tentar discutir os juízos de valores fundamentais. Se alguém aprova como meta, por exemplo, a eliminação da espécie humana da face da Terra, não se pode refutar esse ponto de vista em bases racionais. Se houver porém concordância quanto a certas metas e valores, é possível discutir racionalmente os meios pelos quais esses objetivos podem ser atingidos. Indiquemos, portanto, duas metas com que certamente estarão de acordo quase todos os que lêem estas linhas.

1. Os bens instrumentais que servem para preservar a vida e a saúde de todos os seres humanos devem ser produzidos mediante o menor esforço possível de todos.

2. A satisfação de necessidades físicas é por certo a pré-condição indispensável de uma existência satisfatória, mas em si mesma não é suficiente. Para se realizar, os homens precisam ter também a possibilidade de desenvolver suas capacidades intelectuais artísticas sem limites restritivos, segundo suas características e aptidões pessoais.

A primeira dessas duas metas exige a promoção de todo conhecimento referente às leis da natureza e dos processos sociais, isto é, a promoção de todo esforço científico. Pois o empreendimento científico é um todo natural, cujas partes se sustentam mutuamente de uma maneira que certamente ninguém pode prever. Entretanto, o progresso da ciência pressupõe a possibilidade de comunicação irrestrita de todos os resultados e julgamentos - liberdade de expressão e ensino em todos os campos do esforço intelectual.

Por liberdade, entendo condições sociais, tais que, a expressão de opiniões e afirmações sobre questões gerais e particulares do conhecimento não envolvam perigos ou graves desvantagens para seu autor. Essa liberdade de comunicação é indispensável para o desenvolvimento e a ampliação do conhecimento científico, aspecto de grande importância prática. Em primeiro lugar, ela deve ser assegurada por lei. Mas as leis por si mesmas não podem assegurar a liberdade de expressão; para que todo homem possa expor suas idéias sem ser punido, deve haver um espírito de tolerância em toda a população. Tal ideal de liberdade externa jamais poderá ser plenamente atingido, mas deve ser incansavelmente perseguido para que o pensamento científico e o pensamento filosófico, e criativo em geral, possam avançar tanto quanto possível.

Para que a segunda meta, isto é, a possibilidade de desenvolvimento espiritual de todos os indivíduos, possa ser assegurada, é necessário um segundo tipo de liberdade externa. O homem não deve ser obrigado a trabalhar para suprir as necessidades da vida numa intensidade tal que não lhe restem tempo nem forças para as atividades pessoais. Sem este segundo tipo de liberdade externa, a liberdade de expressão é inútil para ele. Avanços na tecnologia tornariam possível esse tipo de liberdade, se o problema de uma divisão justa do trabalho fosse resolvido.

O desenvolvimento da ciência e das atividades criativas do espírito em geral exige ainda outro tipo de liberdade, que pode ser caracterizado como liberdade interna. Trata-se daquela liberdade de espírito que consiste na independência do pensamento em face das restrições de preconceitos autoritários e sociais, bem como, da "rotinização" e dos hábitos irrefletidos em geral. Essa liberdade interna é um raro dom da natureza e uma valiosa meta para o indivíduo. No entanto, a comunidade pode fazer muito para favorecer essa conquista, pelo menos, deixando de interferir no desenvolvimento. As escolas, por exemplo, podem interferir no desenvolvimento da liberdade interna mediante influências autoritárias e a imposição de cargas espirituais excessivas aos jovens; por outro lado, as escolas podem favorecer essa liberdade, incentivando o pensamento independente. Só quando a liberdade externa e interna são constantes e conscienciosamente perseguidas há possibilidade de desenvolvimento e aperfeiçoamento espiritual e, portanto, de aprimorar a vida externa e interna do homem.

Albert Einstein

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Águia e a Galinha - Uma Metáfora da Condição Humana

Todo Ponto de Vista é a Vista de um Ponto

Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam.
Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura.
A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.
Sendo assim, fica evidente que cada leitor é co-autor. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem. Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita.
Com estes pressupostos vamos contar a história de uma águia, criada como galinha. Essa história será lida e compreendida como uma metáfora da condição humana. Cada um lerá e relerá conforme forem seus olhos. Compreenderá e interpretará conforme for o chão que seus pés pisam.
Os antigos bem diziam: habent sua fata libelli, os livros têm seu próprio destino. Tinham razão, porque o destino dos livros está ligado ao destino dos leitores.
Convidamos você a fazer-se, junto com as forças diretivas do universo, co-criador/co-criadora do mundo criado e por criar.

(L.B. Querência de McKenzie/Padula, Sossego, MG, verão de 1997).

A Águia e a Galinha

Era uma vez um político, também educador popular, chamado James Aggrey: Ele era natural de Gana, pequeno país da África Ocidental. Até agora, talvez, um ilustre desconhecido. Mas, certa feita, contou uma história tão bonita que, com certeza, já circulou pelo mundo, tornando seu autor e sua narração inesquecíveis.

No século XVI Gana foi feita colônia pelos portugueses. E por causa do ouro abundante chamaram-na de Costa do Ouro. Outros, como os traficantes de escravos, denominavam-na também de Costa da Mina.

A pretexto de combater a exportação de escravos para as Américas, a Inglaterra se apoderou desta colônia portuguesa. De início, em 1874, ocupou a costa e, em seguida; em 1895, invadiu todo o território. Gana perdeu assim a liberdade, tomando-se apenas mais uma colônia inglesa.

O contexto é o seguinte: em meados de 1925, James havia participado de uma reunião de lideranças populares na qual se discutiam os caminhos da libertação do domínio colonial inglês. As opiniões se dividiam.

Alguns queriam o caminho armado. Outros, o caminho da organização política do povo, caminho que efetivamente triunfou sob a liderança de Kwame N'Krumah. Outros se conformavam com a colonização à qual toda a África estava submetida. E havia também aqueles que se deixavam seduzir pela retórica* dos ingleses. Eram favoráveis à presença inglesa como forma de modernização e de inserção no grande mundo tido como civilizado e moderno.

James Aggrey, como fino educador, acompanhava atentamente cada intervenção. Num dado momento, porém, viu que líderes importantes apoiavam a causa inglesa. Faziam letra morta de toda a história passada e renunciavam aos sonhos de libertação. Ergueu então a mão e pediu a palavra. Com grande calma, própria de um sábio, e com certa solenidade, contou a seguinte história:

."Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

– Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.
– De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
– Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
– Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:

– Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!

A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:

– Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:

-Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!

Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:

– Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
– Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas. O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte. Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou... voou.. até confundir-se com o azul do firmamento... "

E Aggrey terminou conclamando:

– Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.

  
(Autor: Leonardo Boff. Co-autor: James Aggrey. Em: A Águia e a Galinha, de Leonardo Boff)

domingo, 22 de agosto de 2010

Ter ou Não Ter Filhos?


É incrível, mas até hoje os casais que decidem não ter filhos são olhados com desconfiança, como se estivessem traindo a sociedade e a espécie humana. O argumento que sustenta as críticas – e atinge principalmente a mulher – é o da necessidade de satisfação do instinto materno: “só mesmo uma mulher muito desalmada não tenderia a exercer seus impulsos naturais.” Assim se manifestam as pessoas que seguem os passos de nossos ancestrais, sem nunca refletir sobre o modo como devemos conduzir nossas vidas. 

Se tomarmos outros mamíferos como base, verificaremos que o instinto surge a partir do nascimento da prole. Uma cadela não se entrega à maternidade até que nasçam seus filhotes, quando se torna feroz defensora e guardiã do bem-estar deles. Da mesma forma, acredito que nas mulheres esse instinto se revela apenas a partir da gestação. Ele se mostra nos cuidados que dedicam ao bebê e não no desejo de ter filhos. 

Quando pensamos sobre o passado da nossa espécie, percebemos duas importantes características. A primeira: a reprodução era, como regra, uma manifestação indireta do nosso poderoso instinto sexual – e não da vontade de ser mãe! Com tanto desejo e com recursos anticoncepcionais tão pobres e pouco conhecidos, os casais já voltavam da lua-de-mel “grávidos”. A preocupação com o tema sempre foi muito maior do que a atual. As pessoas viam as mulheres que não engravidavam como problemáticas, detentoras de algum distúrbio. 

A segunda característica se refere à função das crianças na vida familiar do passado. Todos festejavam o nascimento como uma importante conquista. Famílias numerosas podiam arar extensões maiores de terra, o que produzia maiores lucros. Além dos benefícios materiais, os pais contavam com outra vantagem: teriam amparo na velhice. Não havia dúvidas sobre o assunto. 

E hoje? Por que ter filhos nestes dias tão cheios de contratempos e dificuldades? As razões que estiveram a favor da reprodução ao longo de séculos não existem mais: eles não cuidarão de nós na velhice e só alguns nos trarão benefício prático – é claro que existem exceções. Eles tendem a ser dependentes por tempo indeterminado, nos custam muito dinheiro e dificilmente poderão – ou acharão que devem – retribuir algo. Outra coisa: o sexo e a reprodução deixaram de ter a correspondência de antes. 

Temos de aprender a pensar sobre nós e nosso tempo. Não faz mais sentido engravidar “porque todo mundo engravida”. Precisamos respeitar os casais que decidem não ser pais, o que indica que preferem se dedicar a outras causas a se sentir perpetuados em seus descendentes, a cuidar de crianças e acompanhar seu crescimento ou a se beneficiar da alegria e da agitação que levam para os lares. Ter ou não filhos deve ser assunto de discussão para cada casal, uma vez que a decisão é muito relevante para o modo de vida que deseja imprimir à sua existência. Não existe um caminho melhor que o outro. Ser pai ou mãe não é obrigatório, mas facultativo.

Flávio Gikovate - Novembro/2000
Veja a lista completa de artigos no site www.flaviogikovate.com.br

Uma Pessoa Verdadeiramente Forte


A gente costuma ouvir que uma pessoa é forte, que tem gênio forte, quando ela reage com grande violência em situações que a desagradam. Ou seja, a pessoa de temperamento forte só está bem e calma quando tudo acontece exatamente de acordo com a vontade dela. Nos outros casos, sua reação é explosiva e o estouro costuma provocar o medo nas pessoas que a cercam. Talvez essas pessoas sejam responsáveis por chamar o estourado de forte, porque acabam se submetendo à vontade dele. Ele é forte porque consegue impor sua vontade, quase sempre por conta do medo que as pessoas têm do seu descontrole agressivo e de sua capacidade para fazer escândalo.

Se pensarmos mais profundamente, perceberemos que as pessoas de "gênio forte" conseguem fazer prevalecer seus desejos apenas nas pequenas coisas do cotidiano. Elas decidirão a que restaurante os outros irão; a que filme o grupo irá assistir; se a família vai para a praia no fim de semana e assim por diante. As coisas verdadeiramente importantes - a saúde delas e a das pessoas com quem convivem; o sucesso ou fracasso nas atividades profissionais, estudos ou investimentos; as variações climáticas e suas tragédias, como inundações, desabamentos e terremotos; a morte de pessoas queridas - não são decididas por nenhum de nós. O que leva os de "gênio forte" a comportamentos ridículos: berram, esperneiam e blasfemam diante de acontecimentos inexoráveis, e contra os quais nada podemos fazer. Reagem como crianças mimadas que não podem ser contrariadas! Afinal de contas, isso é ser uma pessoa forte?

É claro que não. Querer mandar nos fatos da vida, querer influir em coisas cujo controle nos escapa, não é sinal de força, como também não é sinal de bom senso, sensatez e de uso adequado da inteligência. Talvez fosse muito bom se pudéssemos influir sobre muitas coisas que são essenciais. Mas a verdade é que não podemos. Isso nos deixa inseguros, pois coisas desagradáveis e dolorosas podem acontecer a qualquer momento. E não serão nossos berros que impedirão nossos filhos de serem atropelados, nossos pais de morrerem, nossa cidade de ter enchentes ou desabamentos.

O primeiro sinal de força de um ser humano reside na humildade de saber que não tem controle sobre as coisas que lhe são mais essenciais. Sim, porque este indivíduo aceitou a verdade. E isso não é coisa fácil de fazer, especialmente quando a verdade nos deixa impotentes e vulneráveis.

O segundo sinal, e o mais importante, é a pessoa compreender que ela terá que tolerar toda a dor e todo o sofrimento que o destino lhe impuser. E mais, e este é o terceiro sinal, terá que tolerar com "classe" e sem escândalos. Não adianta se revoltar. Não adianta blasfemar contra Deus. Ser forte é ter competência para aceitar, administrar e digerir todos os tipos de sofrimento e contrariedade que a vida forçosamente nos determina. É não tentar ser espertinho nas coisas que são de verdade. As pessoas que não toleram frustrações, dores e contrariedades são as fracas e não as fortes. Fazem muito barulho, gritam, fazem escândalos e ameaçam bater. São barulhentos e não fortes - estas duas palavras não são sinônimos!

O forte é aquele que ousa e se aventura em situações novas, porque tem a convicção íntima de que, se fracassar, terá forças interiores para se recuperar. Ninguém pode ter certeza de que seu empreendimento - sentimental, profissional, social - será bem-sucedido. Temos medo da novidade justamente por causa disso. O fraco não ousará, pois a simples idéia do fracasso já lhe provoca uma dor insuportável. O forte ousará porque tem a sensação íntima de que é capaz de agüentar o revés.

O forte é aquele que monta no cavalo porque sabe que, se cair, terá forças para se levantar. O fraco encontrará uma desculpa - em geral, acusando uma outra pessoa - para não montar no cavalo. Fará gestos e pose de corajoso, mas, na verdade, é exatamente o contrário. Buscará tantas certezas prévias de que não irá cair do cavalo que, caso chegue a tê-las, o cavalo já terá ido embora há muito tempo. O forte é o que parece ser o fraco: é quieto, discreto, não grita e é o ousado. Faz o que ninguém esperava que ele fizesse.

Flávio Gikovate - Maio/1999
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Respeite o meu direito de não querer te ouvir ou ver


- O fato de alguém querer muito a nossa atenção não nos obriga a aceitar sua aproximação. Ao insistir em seu objetivo, mesmo que nos ame, ela estará sendo prepotente e egoísta.

Um senhor me acusou de desrespeitoso e mal-educado. Motivo? Não quis falar com ele ao telefone. Não o conheço, sabia que ele queria fazer críticas — "construtivas" — ao meu trabalho. Não me interessei em saber quais eram. Uma colega me conta que sua mãe lhe diz: "Sua amiga de infância esteve aqui e está louca para revê-la. Quando posso marcar o encontro?'' Minha colega não tem interesse em saber como está essa pessoa, nem deseja reencontrá-la. Uma filha atende o telefone e diz ao pai: "Fulano quer falar com você". O pai responde: "Diga que não estou". "Mas ele diz que quer muito falar com você." O pai: "Sim, mas eu não quero falar com ele!" 

Afinal de contas, quem está com a razão? Aquele que se sente ofendido por não ser ouvido ou recebido? Ou quem se acha com o direito de só receber as pessoas que lhe interessam? Quem faz questão de colocar sua opinião tem direito a isso ou é prepotente por achar que o outro tem que ouvi-lo, apenas porque ele está com vontade de falar? Ou é egoísta e desrespeitoso aquele que só fala e recebe as pessoas que lhe interessam ou quando está com vontade? Acho fundamental tentarmos entender essas questões aparentemente banais, uma vez que elas são parte das complicadas relações no cotidiano de todos nós. Elas envolvem questões morais e dos direitos de cada um. Tratam do que é justo e do que é injusto. 

Acredito que é direito legítimo de cada um falar ou não com qualquer outra pessoa. O fato de ela querer muito nossa atenção não nos obriga a aceitar sua aproximação. E isso independe das intenções de quem deseja o convívio. Posso, se quiser, recusar a aproximação de uma pessoa, mesmo que ela venha me oferecer o melhor negócio do mundo. E o fato de uma pessoa me amar também não a autoriza a nada! Não pode, apenas por me amar, desejar que eu a queira por perto. 

Ao forçar a aproximação com alguém que não esteja interessado nisso, a pessoa estará agindo de modo agressivo, autoritário e prepotente. As belas intenções não alteram o caráter prepotente da ação. Na verdade, egoísta é quem quer ver sua vontade satisfeita, mesmo se isto for unilateral. Ele não está ligando a mínima para o outro. 

O mesmo raciocínio vale para as pessoas amigas. Não tem o menor sentido eu ir à casa de um amigo para dizer-lhe o que penso de uma determinada atitude sua que não me diz respeito, mesmo que eu não tenha gostado ou aprovado. Ele não me perguntou nada! Ainda que goste muito de mim, talvez não queira saber minha opinião. Talvez não deseje saber a opinião de ninguém! É direito dele. Pode também acontecer o contrário: a pessoa desejar a minha opinião e eu me recusar a dar. Aí é o outro quem tem de respeitar o meu direito de omissão. Não cabe a frase do tipo: "Mas nós somos tão amigos e temos que dizer tudo um ao outro". É assim que, com frequência, se perdem bons amigos. É preciso ter cautela com o outro, com o direito do outro. Não basta ter vontade de falar. É preciso que o outro esteja com vontade de ouvir. Nós nos tornamos inconvenientes e agressivos quando falamos coisas que os outros não estão a fim de ouvir. 

Raciocínio idêntico vale também para as relações íntimas — entre parentes em geral e marido e mulher em particular. Nesses casos o desrespeito costuma ser ainda maior. As pessoas dizem e fazem tudo o que lhes passa pela cabeça. É um perigo. Elas não param de se ofender e de se magoar. Acreditam que, só porque são parentes, têm o direito de falar tudo o que pensam, sem se preocupar como o outro irá receber aquelas palavras. Toda relação humana de respeito implica a necessidade de se imaginar o que pode magoar gratuitamente o outro. É necessário prestar atenção no outro, para evitar agressões, mesmo involuntárias. Quando as pessoas falam e fazem o que querem, sem se preocupar com a repercussão sobre o outro, é porque nelas predomina o egoísmo ou o desejo de magoar.

Flávio Gikovate - Maio/1992
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Pressões sociais e liberdade individual


Acredito que possa ser de enorme valia dissecar certas peculiaridades das relações interpessoais e suas correlações com a questão da liberdade do ser humano. Apesar de já ter sido enfático na afirmação de que o prazer derivado da coerência entre os conceitos e a conduta – é assim que defino a liberdade – está na dependência da maturidade individual, não se pode subestimar o caráter pernicioso das pressões do meio. É preciso uma grande força interior para ter condições de não ceder às repressões externas; se o meio social fosse menos homogeneizador, sem dúvida alguma mais pessoas teriam mais força para buscar um modo de ser coerente com suas convicções. 

Fica claro também que os esquemas econômicos e políticos repressivos – e que sempre estão a serviço de trazer benefícios materiais exagerados a um pequeno grupo – têm um maior interesse na imaturidade e consequente fraqueza emocional das pessoas; é evidente que, nessas condições, elas ficam totalmente submetidas às ordens do meio, por não terem forças para suportar qualquer tipo de dor derivada das críticas e maledicências. E estas pessoas mais inseguras também atuam de um modo repressor em relação às outras pessoas. 

Um exemplo, bem característico do que costuma acontecer no seio da família, poderá nos esclarecer bem. Um pai ou uma mãe inseguros se comportam exatamente conforme as normas de uma dada sociedade; se sentem profundamente infelizes e frustrados com suas vidas, sendo capazes de se perceber como covardes – ao menos consigo mesmos – por não terem dado às suas vidas uma direção diferente. Temem o julgamento dos vizinhos, dos parentes e amigos e acham isto abominável. Porém, se tiverem um filho que, na adolescência, tende para condutas extravagantes e pouco convencionais, imediatamente se transformam nos repressores dele. Temem, por ele, represálias que eles, pais, seriam incapazes de suportar; temem também as críticas diretas relativas ao seu modo de educar os filhos; e, principalmente, agem de modo repressivo por causa da inveja, que é um impulso agressivo derivado da admiração. 

Os esquemas repressivos podem ser diretos – autoritários – ou mais sutis. Os esquemas autoritários são de natureza primitiva, tanto através do exercício do poder efetivo que uma pessoa tenha sobre a outra (o pai pode impedir um filho de sair de casa, suprimir sua mesada etc.), como através da subtração das manifestações de afeto (ficar sem falar com um filho, mostrar-se indiferente e decepcionado etc.). 

Os esquemas sutis são de natureza mais intelectualizada, tendo, por isso mesmo, uma aparência racional e lógica. O mais em voga tem a ver com o uso que muitas pessoas fazem das interpretações psicológicas. O modo como o conhecimento da subjetividade humana foi difundido pelos meios de comunicação em massa guarda apenas uma pálida semelhança com a grandeza do pensamento, sério e refinado, do grande nome e iniciador da psicologia como ciência, que foi Freud. Estabelecem-se rápidas e fáceis correlações entre os comportamentos atuais e eventuais experiências "traumáticas" do passado, todas elas com a finalidade de desqualificar a racionalidade da conduta afetiva. Assim, se os jovens se opõe aos padrões convencionais de sua damília, isso será porque teve uma forte carência afetiva na infância e está agora apenas querendo chamar a atenção e atenuar suas frustrações afetivas.

Será que as coisas são mesmo assim? Será que se opor a padrões oficiais – mesmo quando seus seguidores não estão satisfeitos e se percebem como frustrados e covardes – é apenas uma manifestação de inadequação psicológica? Não será um esforço sincero no sentido de buscar uma solução individual mais satisfatória, ao menos como ingrediente fundamental?


Flávio Gikovate
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Os Gordos Podem Aprender com os Magros


Não pretendo ser simplista e afirmar que existe um caminho único e fácil para se resolver a complicada questão da obesidade. Mas proponho uma inversão radical no modo de pensarmos a repeito do assunto. Em vez de nos atermos aos gordos e aos seus hábitos, que tal voltarmos nossa atenção para o modo de ser dos magros?

Os magros não sabem o que é passar o dia contando quantas calorias já comemos, pensando os alimentos antes de ingeri-los, visitando a balança. Os gordos se entretêm numa espécie de videogame interior, onde eles vencem ou perdem conforme o número de calorias que consumiram naquele dia ou naquela refeição. Nenhum magro sofre desse tipo de obsessão. Trata-se de um processo psíquico muito intenso, capaz de determinar um novo tipo de prazer, semelhante ao que um corredor pode ter ao quebrar seus recordes. Compõe-se de uma espécie de desafio interior, que se associa a uma importante ocupação do tempo e da energia psíquica.

Sei de pessoas que emagrecem e ficam tristes porque não terão mais como ocupar seu cérebro. Em vez de ficar contentes com o resultado obtido, sentem uma certa depressão relacionada com o fim do jogo. Adquirir – ou readquirir – uma “cabeça de magro” implica em abrir mão desse tipo de disputa consigo mesmo, que envolve uma permanente intromissão da razão nos processos metabólicos e que provavelmente determina resultados muito negativos.

A conquista da “cabeça de magro” corresponderia à verdadeira cura, do ponto de vista psicológico, da obesidade. Ela consiste na renúncia da razão em querer controlar o processo alimentar e metabólico. Poderemos nos alimentar com a naturalidade característica dos magros, sem vergonha ou culpa – atitudes próprias dos que se acham em transgressão. Nenhum magro entra numa doceria para, de forma rápida, comer doces com medo de ser pego em flagrante – comportamentos similares existem, por exemplo, entre os alcoólatras que tentam beber escondido. O magro saboreia e se delicia com o doce comprado com orgulho. Não tem pressa de terminar, por isso não o coloca inteiro na boca. Mastigará delicadamente e comerá apenas o que desejar. Não terá de se fartar, uma vez que, para ele, a doceria não irá fechar amanhã.

O magro não fará dieta na segunda-feira, por isso não terá de comer toda a pizza que conseguir no domingo à noite – o que povoca a desagradável sensação de mal-estar decorrente do excesso de ingestão de comida. Comerá dois pedaços, talvez três. Sabe que poderá comer pizza de novo no lanche da manhã se assim o desejar, condição que diminui a compulsão voraz.

É possível que o gordo que tentar viver como os magros venha a engordar uns poucos quilos no primeiro momento em que parar de se controlar e de dominar seus desejos. Isso durará pouco, pois a tendência para o abuso da liberdade recém-adquirida será breve. O que virá depois é a normalização da sua relação com a comida e com o peso corpóreo. Deixará de se pesar a todo momento, comerá sem culpa e somente o necessário. Não se sentirá tão feliz quanto imaginou, pois o prazer de ser tornar magro é efêmero. Logo compreenderá que os magros também têm dissabores e sofrimentos

Flávio Gikovate - Outubro/2000
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Com Medo de Ser Feliz

O encontro amoroso pleno é o sonho da maioria das pessoas que tenho conhecido. E como são poucas as que chegam lá! Será por coincidência? Seriam as dificuldades externas – obstáculos de todo tipo – que impediriam a realização do amor?

Não acredito em nada disso. Penso que existe um "fator antiamor" presente em nossa mente. Trata-se do medo, que é derivado de várias fontes. A mais óbvia delas é a relacionada com a dependência. Sim, porque é absolutamente impossível amar sem depender, sem ficar na mão do ser amado. Se ele fizer mau uso disso, acabará nos impondo grande sofrimento e dor. É por isso que muitas pessoas preferem renunciar à entrega amorosa. Preferem ser amadas em vez de amar. Pode parecer esperteza, mas na realidade é covardia.

Além da dependência, há vários medos relacionados à experiência do amor. Vou me dedicar a mais um, talvez mais importante que os outros. É o medo da felicidade. Nada faz uma pessoa tão feliz quanto a realização amorosa. Quando estamos ao lado do amado, a sensação é de plenitude, de paz. O tempo poderia parar naquele ponto, pois todos os nossos desejos teriam sido satisfeitos.

No entanto, logo depois da euforia surge a inquietação, acompanhada de um nervosismo vago e indefinido. Parece que alguma desgraça está a caminho, aproximando-se a passos largos. Temos a impressão de que é impossível preservar tamanha felicidade. Não adianta nem mesmo seguir os rituais supersticiosos: bater na madeira, fazer figa… Aliás, tais atitudes derivam justamente da incredulidade que nos domina quando as coisas vão bem demais em qualquer setor da vida.

Deixando de lado as importantes questões teóricas relacionadas à existência desse temor, podemos dizer que o medo da felicidade tem como base o receio de sua futura perda. Quanto mais contentes e realizados nos sentimos, tanto mais provável nos parece o fim desse "estado de graça". Segundo um estranho raciocínio, as chances de ocorrerem coisas dolorosas e frustrantes aumentam muito quando estamos felizes. O perigo cresce proporcionalmente à alegria. Dessa forma, à sensação de plenitude vai se acoplando o pânico.

Então o que fazemos? Afastamo-nos deliberadamente da felicidade. Cometemos bobagens de todo tipo: arrumamos um modo de magoar a pessoa amada, de inventar problemas que não existem ou exageramos a importância dos pequenos obstáculos. Escolhemos parceiros inadequados, prejudicando às vezes outras áreas importantes da vida: saúde, trabalho, finanças. Para reduzir os riscos de uma hipotética tragédia, procuramos um jeito de apagar nossa alegria. Enfim, criamos uma dor menor com o objetivo de nos proteger de uma suposta dor maior.

O medo de perder o que se alcançou existe em todos nós. Porém, gostaria de registrar com ênfase que a felicidade não aumenta nem diminui a chance de fatos negativos acontecerem. Trata-se apenas de um processo emocional muito forte, mas que não corresponde à verdade. Felicidade não atrai tragédias! É só uma impressão psíquica.

O que fazer para nos livrarmos dessa vertigem simbólica que torna a queda inevitável? Como sair do impasse e ter forças para enfrentar o amor? Só há uma saída, já que não se conhece a "cura" do medo da felicidade. É preciso diminuir o medo da dor. Assim, ganharemos coragem para lidar com situações que geram alegria e prazer. Perder o receio de sofrer é necessário até porque a felicidade poderá de fato acabar. Não tem cabimento, porém, deixar de experimentá-la, pensando apenas nessa eventualidade.

Todo indivíduo que andar a cavalo estará sujeito a cair. Só terá certeza de evitar acidentes quem nunca montou. Isso, repito, é covardia e não esperteza. Reconhecer em si forças suficientes para suportar a queda e ter energias para se reerguer mostra coragem e serenidade. Uma pessoa é forte quando sabe vencer a dor. Trata-se de um requisito básico para o sucesso em todas as áreas da vida, inclusive no amor. Ninguém gosta de sofrer, mas não é moralismo religioso dizer que superar as frustrações é a conquista mais importante para quem quer ser feliz. Você deseja a realização de seus sonhos? Então, tem de correr o risco de cair e se sentir capaz de sobreviver à dor de amor!

Flávio Gikovate - Março/2000
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A Vida Sexual dos Casados

Namorados têm a impressão de que, depois de casados, a vida sexual será intensa ou até mais agitada, já que poderão dormir juntos todas as noites. A realidade, porém, conspira contra esses planos e quem não estiver preparado para enfrentá-la pode se decepcionar muito. 

Aprendemos com os filmes de amor que, quando um casal se ama, se casa e vive feliz para sempre. Não nos informaram dos obstáculos da vida em comum nem do quanto o sucesso do matrimônio depende do nosso empenho. Não nos avisaram também que dificuldades do dia-a-dia podem interferir negativamente no amor e no sexo. E mais: que os conflitos de relacionamento dos tempos de namoro tendem a se intensificar no casamento. 

Se não tomarmos cuidado, passaremos as noites discutindo divergências, problemas familiares e financeiros e reclamando que não estamos tendo o retorno que esperávamos do casamento. Vamos nos esquecer de namorar, de trocar gestos e palavras de carinho, de transar. 

Antes do casamento, separávamos melhor as coisas. Compartilhávamos os problemas com nossos parentes e só recorríamos ao namorado para pedir conselhos ou uma ajuda eventual. Ao se casarem, marido e mulher contam apenas um com o outro para resolver questões práticas, mas nem por isso precisam transformá-las em sua única prioridade. Casais que dedicam mais tempo a assuntos de pouca relevância amorosa tendem a descuidar da vida sexual. Relegado a segundo plano, o sexo perde a prioridade. A situação se complica ainda mais com o nascimento dos filhos. 

Numa primeira etapa, é inevitável que as mães dêem toda a atenção ao recém-nascido. O instinto materno, que as impulsiona a cuidar da cria e a protegê-la, se sobrepõe ao desejo pelo marido. Ainda que natural, essa diminuição do interesse sexual pouco antes e logo depois do parto costuma melindrar os homens. Eles a compreendem, mas não deixam de se sentir rejeitados. Podem reagir negativamente demonstrando menos interesse por elas. 

Mais do que tudo, é isso que explica o fato de muitos homens passarem a desejar menos suas mulheres depois que nascem os filhos. Sentindo-se menos desejadas e, por isso, menos amadas, elas se apegam ainda mais aos filhos, alimentando um círculo vicioso perigoso que pode ser fatal. 

Casais que conseguiram se livrar dessa armadilha conversando longamente, compreendendo e aceitando as diferenças entre os sexos, terão de se proteger de outras, criadas pelas próprias crianças. Exigentes, carentes de atenção e de carinho, os filhos pequenos atropelam a vida íntima do casal, a menos que os pais imponham limites. Um dos mais eficazes é impedir que se acostumem a ficar na cama do casal até altas horas da noite. 

Posturas rigorosas em defesa dos seus direitos e disposição permanente de recriar e manter condições propícias para o romance e o erotismo são indispensáveis para que os jovens pais não caiam na monotonia do sexo rápido, pobre e reduzido às tardes de sábado ou domingo. Filhos podem ser encantadores e desempenhar um importante papel em nossas vidas. Mas não podem ser impedimento para a união sexual do casal.

Flávio Gikovate - Novembro/2000

A Riqueza de um Casamento Romântico

Do ponto de vista teórico, os casamentos com altos e duradouros lances de romantismo deveriam ser muito mais freqüentes que aqueles baseados em uma sexualidade rica e exuberante. Mas, na prática, isso não ocorre. Não quero dizer que sejam tão comuns as uniões sexualmente satisfatórias, mas que são raríssimos os casais que conseguem viver, ao longo de várias décadas, uma experiência sentimental bonita, daquelas de encher o coração de alegria e os olhos de lágrimas, de tanta emoção. 

As coisas costumam ser mal colocadas desde o começo. A grande maioria dos casamentos ocorre entre uma pessoa apaixonada e outra que prefere ser objeto da paixão. Enquanto a primeira – mais generosa – oferece, a segunda – mais egoísta – recebe. A mais generosa tem coragem de amar. A egoísta tem medo de sofrer e se protege da dor do amor ao não se abrir demais para a relação. As uniões desse tipo apresentam momentos bonitos, é claro. Possibilitam até mesmo uma vida sexual de permanente conquista. Sim, porque o egoísta nunca se entrega totalmente ao outro, de modo que o generoso estará sempre tentando conquistá-lo. Esse fenômeno costuma gerar alguns instantes de profundo encontro, mas são momentos vãos, que logo se desfazem. E o corre-corre das brigas e da luta pela conquista volta. 

No entanto, esse é apenas um dos aspectos da questão. Outro fator de peso está nas diferenças de temperamento (generosos e egoístas são bastante diferentes), de gosto e interesses. Na vida prática, no dia-a-dia, as divergências de opinião e a falta de um projeto comum provocam irritação permanente. E isso não vale só para as grandes diferenças. O cotidiano se faz realmente nas pequenas coisas: Onde vamos jantar? Que amigos vamos convidar? Onde vamos passar as férias? A que filme vamos assistir? Como agiremos com as crianças? O que faremos com os parentes? E assim por diante. São justamente estas pequenas contradições que provocam a irritação, a raiva e, portanto, a maioria das brigas. As afinidades aproximam as pessoas, enquanto as diferenças as afastam. Além do mais, a oposição é a raiz da inveja: o baixo inveja o alto; o gordo, o magro; o preguiçoso, o determinado; o introvertido, o sociável. E a inveja é inimiga do diálogo. Nesse tipo de união, as brigas serão o normal no relacionamento, e os momentos de encontro e harmonia serão exceções cada vez mais raras. 

Eu disse que, do ponto de vista teórico, a felicidade romântica no casamento poderia ser bastante comum porque o amor não padece do desejo de novidade que tanto agrada ao sexo. Ao contrário, o amor é apego, é vontade de aconchego, de tranqüila intimidade. Trata-se de um sentimento que floresce e frutifica melhor quando tudo é exatamente igual e antigo. Gostamos da nossa casa, daquela velha roupa que nos agasalha tão bem. Gostamos de voltar aos mesmos lugares do passado, da nossa cidade, do nosso país. Queremos também sentir essa solidez e estabilidade com o nosso parceiro amoroso. Amor é paz e descanso e deriva justamente do fato de uma pessoa conhecer e entender bem a outra. Por isso, é importante que as afinidades, as semelhanças, predominem sobre as diferenças de temperamento, caráter e projetos de vida. Seres humanos parecidos poderão viver uma história de amor rica e de duração ilimitada. Não terão motivos para divergências. Não sentirão inveja.

Um último alerta – além da lição que se pode tirar da experiência, acima descrita, dos raros casais que vivem harmoniosamente – é que cada um deve procurar se unir a seu igual. Só assim o amor não será um momento fugaz. Para que a intimidade não se transforme em tédio e continue a ser rica e estimulante, é necessário que o casal faça planos em comum e que depois se empenhe em executá-los. De nada adianta fugir para uma ilha deserta para curtir a paixão maior. Quem fizer isso provavelmente voltará, depois de dois meses, decepcionado com a vida e com o amor. A vida é um veículo de duas rodas: só se equilibra em movimento. Para que duas pessoas se tornem uma unidade é preciso criar um objetivo: ter filhos, construir uma casa, um patrimônio, uma carreira profissional, um ideal… o conteúdo em si não interessa. Seja qual for, é a cumplicidade que o transforma em algo fundamental. Fazer planos é sempre uma aventura excitante. É sobre eles que mais adoramos sonhar juntos.

Flávio Gikovate - Março/2000
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A oração e os poderes da mente

Nos dias de hoje, cada vez mais pes­soas acreditam que o sucesso ou o fracasso de um empreendimento depende, ao menos em parte, da maneira como organizamos nosso mundo interior e nossos pensamentos. O fato de nos colocar­mos de modo positivo e afirmativo, frente à realização de um certo objetivo, aumentaria as chances de sermos bem-sucedidos. Será verdade? Antes de mais nada, temos de saber se a disposição interior realmente interfere em nossas realizações.
 
Acredito que sim. E por dois mecanismos. O primeiro tem a ver com o que chamo, desde 1980, de medo da felicidade. Todos nós nos assustamos um pouco - ou muito -quando percebemos que nossos projetos estão sendo bem encaminhados e com chances crescentes de sucesso. Parece que o acúmulo de coisas boas "atrai" maus pensa­mentos, a inveja das pessoas - o que é ver­dade - e a ira dos deuses. Nos sentimos ameaçados. É como se as chances de tragédia aumentassem na proporção de nossos bons resultados. Apesar de falso, é assim que sen­timos. Daí a prática universal de rituais supersticiosos de proteção, como bater na madeira, fazer figa, usar amuletos, etc. Quanto mais competentes para "suportar" alegrias, maior será a tendência de agirmos de modo positivo e construtivo. Afinal, quan­do o medo da felicidade cresce muito, acabamos cometendo equívocos que nos afastam do sucesso e nos conduzem para piores resultados. Apesar de tristes, eles são menos ameaçadores. O sucesso dá mais medo que o fracasso!
 
O outro mecanismo tem a ver com os fenômenos chamados paranormais. Apesar de ser terreno menos sólido do que o mecanismo anterior, é indiscutível e fácil de ser provado. Só pessoas muito teimosas, hoje em dia, põem em dúvida a existência, por exemplo, da telepatia. A telepatia corresponde ao fenômeno parapsicológico mais simples e ele­mentar. É a comunicação entre dois cérebros por meio de processos chamados de extra-sensoriais (sem auxílio dos órgãos dos senti­dos). Assim, existem dois níveis de comuni­cação - em luta - entre as pessoas: o sensorial e o extra-sensorial. Quando dois concor­rentes disputam um determinado segmento de mercado, por exemplo, há a propaganda feita para os órgãos dos sentidos e aquela que chegará por vias paranormais.
 
A propaganda que se irradia por caminhos parapsicológicos dependerá do estado de alma daquele que estiver vendendo o produ­to. Se sua disposição última para o sucesso é forte e definida, sem titubeies e com boa con­vicção em suas chances, você poderá ter um resultado mais favorável do que um competi­dor que, em igualdade de condições, negli­genciar este aspecto subjetivo, mais psi­cológico. Crescem, assim, as chances de sucesso para o indivíduo que controla seus medos íntimos ligados ao sucesso e à felici­dade. E também para aqueles que menta­lizam positivamente para que as coisas ca­minhem do modo como pretendem. Isto não quer dizer que o êxito está garantido.
 
Quem afirma isso é um vendedor de ilusões. É preciso que exista competência efetiva para o sucesso: a mercadoria que está sendo vendida terá que ser, no mínimo, igual à dos concorrentes. Não se pode, contudo, subestimar os rivais: eles também podem mentalizar e até de modo mais eficaz! Neste caso, serão eles os vencedores, e não nós.
 
Pode parecer, graças ao progresso das ciên­cias do cérebro e da psicologia, que estamos nos apropriando de mecanismos novos. Não é o que penso. Todas as técnicas modernas de mentalização, de potencialização do uso do cérebro, nada mais são que versões científi­cas das tradicionais e antiqüíssimas orações, próprias da maioria das religiões. Por meio da oração, o fiel se concentra, pede a Deus que o ajude a atingir determinados objetivos, que lhe dê força para suportar dores e dificul­dades. O indivíduo se concentra algumas vezes por dia, com toda sua força psíquica, com a finalidade de aumentar suas chances de sucesso. Há dúvidas sobre se Deus ouve ou não cada uma das orações e pedidos. Porém, não creio que restem dúvidas de que este processo de mentalizar, próprio da oração, seja eficaz. Talvez daí tenha vindo o ditado: "Mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga".

Flávio Gikovate - Julho/1993
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A Escolha da Profissão

Muitos adolescentes têm enorme dificuldade para escolher sua futura profissão. Independentemente das limitações atuais do mercado de trabalho, é complicado decidir hoje a área em que se vai atuar daqui a 5 ou 6 anos. Alguns já definiram sua preferência, mas a maioria ainda continua confusa. Parece que, quanto mais opções há, maior é a dificuldade de escolha.

Ajudaria muito fazer um autoquestionamento sobre a relação entre o tipo de personalidade e a sua correspondente área de estudo. Neste texto, subdivido as áreas em humanas e exatas, caracterizando as pessoas em mais sensíveis ou mais racionais. As mais sensíveis, movidas por uma dinâmica mais emocional, devem procurar as áreas humanas, que podem ser:

Biológicas – se gostarem de doentes, de sangue, de cuidar dos outros e de ter afinidade para atender aos pacientes;
Psicológicas – se souberem ser empáticas, ouvir as pessoas, ajudá-las com seus problemas e ter bom senso;
Publicidade e propaganda – se tiverem sensibilidade e espontaneidade para criar, e gostarem de ler e escrever;
Arquitetura – se tiverem ao mesmo tempo criatividade, bom gosto e intimidade para lidar com espaços e formas;
Sociologia – se tiverem convicções políticas e sociais;
Antropologia – se desejarem buscar raízes familiares e históricas;
Direito – se gostarem de ler, escrever e souberem argumentar para defender causas e/ou pessoas;
Teatro, televisão e cinema – se forem narcisistas e gostarem de representar outros papéis.

Quem possui características mais racionais que emocionais tem mais chances de se encontrar nas áreas exatas. Entre elas:

Mercado financeiro – se gostar de trabalhar com economia, administração de negócios e finanças em geral;
Engenharia geral – se gostar de cálculos e construção;
Computação – se gostar de informatizar a própria vida;
Comércio – se tiver “feeling” (tino comercial) para negociar.

Os profissionais liberais e empresários, por sua vez, são pessoas que têm a si mesmas como chefe. Precisam, principalmente, das seguintes características psicológicas: liderança, disciplina, auto-estímulo, empatia, autoproteção e habilidade para o atendimento a clientes.

Apesar desta auto-análise, precisamos ter em mente que a escolha poderá mudar durante a carreira, porque o mundo está cada vez mais dinâmico e nossas buscas por realização também.

Infelizmente, o desencontro não é privilégio dos jovens. O mercado está cada vez mais apertado e competitivo, o que exige um conhecimento maior em assuntos diferentes e línguas estrangeiras. Hoje é muito comum pessoas acima dos 40 anos voltarem para a faculdade, tentando uma área nova ou complementar à sua.

O grau de insatisfação é muito grande. Após anos de trabalho e dedicação, amargamos a frustração de nos encontrarmos no início de tudo, com a consciência de que não somos nós os responsáveis por isso e, sim, a conjuntura econômica atual. O importante é estarmos atentos e abertos para estas mudanças internas, em qualquer tempo. O pior da insatisfação é a estagnação e a acomodação.
Flávio Gikovate - Outubro/2000
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Sobre estar sozinho...

Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.

A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral. A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.

Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém.

Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.

Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não à partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação,há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo.


Flávio Gikovate
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sábado, 21 de agosto de 2010

Para Onde Caminha o Amor

Tudo nos leva a supor que a capacidade de as pessoas viverem sozinhas esteja aumentando. Ou seja, é cada vez maior o número de homens e mulheres que se sentem razoavelmente em paz consigo mesmos, que são capazes de se entreter com seus afazeres e interesses, que sabem ir a um cinema ou bar sem se sentirem humilhados pela falta de companhia. Aliás, o aspecto social, também muito importante, começa a ser alterado.

Até pouco tempo atrás, a pessoa solteira era discriminada e rejeitada. Quem não estivesse casado era visto como portador de status social inferior. Havia, portanto, uma forte pressão na direção do casamento. Sempre que constato esse tipo de pressão sou tentado a desconfiar das "delícias" do objetivo que se pretende impor. Se fosse tudo tão bom não seria necessário pressionar tanto!

A capacidade para uma razoável auto-suficiência é uma das mais importantes aquisições do homem contemporâneo. Ela é fruto do empenho que tanto temos feito na direção do autoconhecimento e da introspecção. O progresso tecnológico, que nos deu a televisão, o videocassete e tantos outros equipamentos, também tem contribuído para que as nossa horas solitárias sejam passadas de modo agradável e rico. Com tudo isso, é natural que muitos de nós prefiram ficar sós a estar mal acompanhados. Maus casamentos, suportados apenas em razão das inseguranças e medos de se enfrentar um futuro incerto e eventualmente solitário, estão com os dias contados.

As relações ricas, plenamente gratificantes, baseadas no respeito mútuo, na compreensão e no desejo profundo de contibuir para que a pessoa amada seja o mais feliz possível continuarão a existir e a florescer como vida em comum. Isso, desde que não existam impedimentos externos comprometedores (filhos de relacionamentos anteriores com atitude destrutiva, graves dificuldades financeiras e divergências práticas ou filosóficas de monta), que podem ir minando as bases da aliança afetiva. Mas quantos são esses casamentos? Uns 10%? Talvez nem isso.

O que está ocorrendo, a meu ver, é uma importante modificação nas pessoas capaz de levá-las a olhar melhor o fenômeno do amor e a instituição casamento. Como não estão mais desesperadas para se unir a alguém a qualquer custo, podem, em primeiro lugar, compreender que o amor é uma coisa e o casamento é outra.

O amor é uma sensação de paz e aconchego que sentimos quando estamos junto de uma pessoa, que por inúmeras razões, se tornou especial e única para nós. O casamento é uma sociedade civil complicada, ultimamente mal sucedida e geradora de conflitos. Ele terá de ser olhado à luz da razão e não do ponto de vista do amor. É lógico que ninguém vai querer morar junto com alguém que não provoque prazer romântico. Mas não é só isso o que determinará o estabelecimento da sociedade conjugal.

Dificuldades práticas de convívio levarão as pessoas, segundo creio, a estabelecer um convívio em termos de namoro: cada um viverá em sua casa, com suas finanças próprias, seu estilo de vida e seus problemas individuais. Se as dificuldades objetivas não existirem e se houver metas em comum que justifiquem o estabelecimento do vínculo societário, aí então as pessoas irão estabelecer matrimônio. É o caso, por exemplo, dos casais que efetivamente desejam ter filhos e patrimônio em comum. A freqüência de casamentos será muito menor, mas a qualidade deles tenderá a ser melhor. E quem não quiser esse tipo de vida ficará sozinho e buscará a felicidade por outros caminhos.

Flávio Gikovate -Dezembro/1999
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O Amor no Terceiro Milênio

Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início desde milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossas felicidades, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características para se amalgamar ao projeto masculino. A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso - o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa alguma. É apenas um companheiro de viagem.

O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria, ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral. A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.

A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se toma menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo...

"A pior solidão é aquela que se sente quando acompanhado"

Texto de Flávio Gikovate
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Psicólogo Flávio Gikovate revela como serão as relações amorosas e sexuais no futuro - O Globo

Psicólogo Flávio Gikovate revela como serão as relações amorosas e sexuais no futuro - O Globo

domingo, 8 de agosto de 2010

A beleza é uma arma política usada para a dominação das mulheres.


 
A beleza e a fome

A beleza é uma arma política, sistematicamente usada para a dominação das mulheres. Como o feminismo alcançou vitórias surpreendentes no mundo todo, nada mais previsível do que o recrudescimento dos padrões estéticos para controlar a população feminina, abalando‑a psicologicamente.

Os mitos da maternidade, domesticidade, castidade e passividade já não exercem a mesma coerção social sobre a vida da mulher ocidental. Foi preciso substituí‑los por um padrão de beleza absolutamente implacável para conseguir anular tantos passos dados no sentido da emancipação.

Foi assim que as magras transformaram‑se no maior referencial de beleza da atualidade. Há agências de propaganda apresentando mulheres que, além de esquálidas, têm aparência de dependentes de drogas: todos os ossos à mostra, olheiras profundas, pele cor de cinza, corpo quase desfalecido, em poses que denotam dificuldade de ficar em pé.

A ideologia da magreza obriga todas as mulheres a passar fome: o padrão a ser seguido está muito fora das possibilidades naturais da esmagadora maioria. Se tudo estiver bem, ainda assim, a vida consegue ser um tormento, já que não se pode comer.

A fome é natural do ser humano, e nenhuma pessoa consegue ser uma subnutrida feliz. O resultado é que quem faz regime (eterno) sofre porque tem de lutar contra um dos mais fortes instintos de sobrevivência; quem não faz sofre porque passou da medida estipulada pela mídia e tornou‑se vítima de rejeição social. E essa patologia leva à morte.

A beleza não é universal nem imutável. Há pouco tempo, os padrões estéticos consagrados ligavam‑se a corpos e rostos muito queimados de sol. As pessoas esturricaram a epiderme, até que começaram a surgir os melanomas. Vieram os filtros solares e o respeito pelas peles branca e morena naturais.

Quando a sociedade se curar da insanidade das “dietas de fome”, só os obesos terão de controlar o peso e, ainda assim, por questões de saúde. O restante da humanidade, esperamos, terá alcançado melhor qualidade de vida.

(Luiza Nagib Eluf. Folha de S. Paulo, 2/1/1998, com alterações)